Cultura
Websérie resgata acervo do poeta e dramaturgo Abdias do Nascimento
Cultura
Uma websérie lançada nessa segunda-feira (16) resgata todo o trabalho de preservação do acervo do ativista, artista plástico, dramaturgo, poeta e político pan-africano Abdias do Nascimento.

Chamada “Andorinha”, a série está disponível no canal do Ipeafro, Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros no YouTube, e mostra o processo de organização do acervo que guarda a memória de um dos maiores legados da cultura negra do Brasil e dos países da parte sul do planeta.
São cerca de 3.500 livros de sua coleção bibliográfica, 600 obras artísticas e 20 mil imagens no acervo iconográfico. O cotidiano da preservação da memória passa também pelas organizações criadas por Abdias, como o Teatro Experimental do Negro, o Museu de Arte Negra e o próprio Ipeafro.
O nome “Andorinha” foi uma escolha da equipe por simbolizar a força do coletivo. O fato de as andorinhas voarem juntas, de forma sincronizada e por longas distâncias, lutando contra grandes desafios, reflete o trabalho, em rede, do Instituto fundado por Abdias do Nascimento nos anos 1980.
A série inédita, com direção da jornalista Maria Eduarda Nascimento e edição de João Nascimento, é composta por sete episódios, que serão lançados sempre às segundas-feiras, abordando os bastidores e desafios do trabalho dos profissionais para organizar, preservar e, principalmente, difundir o acervo histórico e artístico deixado por Abdias.
Por causa de sua importância, o Acervo Abdias do Nascimento é reconhecido internacionalmente e inscrito no Programa Memória do Mundo da Unesco.
As informações sobre a websérie podem ser encontradas no site ipeafro.org.br e nos perfis do Instituto nas redes sociais.
Cultura
Ao poeta, poesia: amigos se despendem de Luis Turiba neste sábado (29)
DESACONTESSÊNCIAS

desaconteci
(mentavelmente)
tudo acontece para
desacontecer em si
anoitece para amanhecer
nascer viver crescer morrer
tecer escrituras em silêncios
semânticas em pura seda
Luis Turiba desaconteceu na madrugada de 26 de agosto, em Salvador, aos 76 anos. Poeta, ativista cultural, jornalista. Nascido no Recife, em 1950, Turiba deixa cinco filhos, seis netos e uma ampla obra, que inclui poesias, crônicas, textos jornalísticos, video-documentários, revistas culturais e parcerias musicais.
Seu primeiro livro de poesia, Kiprokó, foi lançado em 1977. No Rio de Janeiro, pra onde se mudou ainda jovem, conseguiu emprego como repórter, iniciando uma bem-sucedida carreira com passagens pela revista Manchete e pelos jornais O Globo e Gazeta Mercantil. Foi como correspondente da Gazeta que Turiba mudou-se para Brasília, em 1979. Ganhou vários prêmios por suas reportagens, inclusive dois Esso regionais.
Amigo de Turiba desses tempos de início de Brasília, o poeta Nicolas Behr conta que conversou com o amigo na véspera do falecimento
“Não esperava essa notícia. Grande agitador cultural, um homem de ideias e de realizações, que fazia poeta, jornalista, atuante, ativo, presente. Editor da revista Brica Brac, né? Essa revista que nos anos 80 entrou para a história da literatura a história das história das revistas literárias brasileiras do século passado. Grande Turiba, só temos que celebrar sua memória, sua eterna presença entre nós.”
A revista cultural Bric-a-Brac foi editada entre 1985 e 2022. A publicação extrapolou os limites do Distrito Federal, entrevistando intelectuais e artistas como Caetano Veloso e Paulinho da Viola; Nise da Silveira; Manoel de Barros, entre outras personalidades.
Em sua trajetória, passou pela assessoria de comunicação do ministério da Cultura, que soltou nota lamentando a morte de Turiba e afirmando que o jornalista “participou de momentos importantes da história do próprio MinC”.
O Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal lembrou que “além de sua escrita afiada nas redações, Turiba foi um símbolo vivo da resistência democrática que marca a história da categoria. Militante histórico, ele sofreu severa perseguição política, prisão e tortura durante o regime militar”.
Em agosto de 2024, a Comissão de Anistia concedeu anistia política a Turiba, reconhecendo que a farta documentação que o escritor reuniu e apresentou ao colegiado comprova que, durante a ditadura, ele foi perseguido por razões políticas, tendo sido monitorado pelo Serviço Nacional de Informações (SNI) até meados da década de 1980. Além da condição de anistiado, Turiba recebeu do Estado brasileiro um pedido formal de desculpas.
Após anos atuando como assessor do Ministério da Cultura, aposentou-se no início da década de 2010 para dedicar-se exclusivamente à literatura. Viveu os últimos anos entre o Rio de Janeiro, Salvador e Brasília.
Neste sábado, amigos prestam a última homenagem no Beirute, tradicional restaurante de Brasília. Reduto de muitos encontros e acontecências.
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