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Setembro Amarelo: quando a falta de lugar no mundo mata

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No mês de prevenção ao suicídio, dados revelam que o Brasil mata mais seus jovens, idosos, indígenas e LGBTQIAPN+. Especialistas alertam: não é doença individual, é solidão estrutural.O país que mais se mata em silêncioO Brasil registrou 16.751 suicídios em 2024. Entre 2010 e 2021, a taxa cresceu 42%, saltando de 5,2 para 7,5 por 100 mil habitantes. Só entre 2020 e 2021, já na pandemia, o aumento foi de 11,4%. Os números são da revisão de escopo publicada na revista Saúde em Debate em 2024, que analisou 30 anos de publicações no país.O perfil se repete: homem, entre 20 e 49 anos, solteiro, economicamente ativo. Sudeste e Nordeste concentram o volume absoluto. Mas quando a lente fecha nas taxas por habitante, outras regiões explodem.É o caso da Amazônia Legal. Um estudo publicado no The Lancet Regional Health Americas por pesquisadores da Fiocruz analisou 2012 a 2020 e encontrou um dado brutal: entre indígenas de 15 a 24 anos, a taxa é de 17,6 por 100 mil – 2,7 vezes maior que a de jovens não indígenas da mesma região. São meninos de menos de 20 anos, com baixa escolaridade, que morrem por enforcamentodentro de casa.“A gente fala de depressão, mas estamos falando de conflito fundiário, confinamento em reservas minúsculas e perda de identidade”, resume a pesquisa. É a morte por falta de território.A adolescência sem futuro e a velhice sem lugarSe o dado indígena choca, os dois extremos da vida preocupam. De 2013 a 2023, 4.526 adolescentes entre 10 e 19 anos tiraram a própria vida no Brasil. A curva só cai em 2019 e dispara de novo no pós-pandemia.Segundo a Organização Mundial da Saúde, o suicídio já é a quarta causa de morte entre 15 e 29 anos no mundo – 88% em países pobres e de renda média.O que leva um adolescente a desistir? Acesso a arma de fogo em casa, bullying, violência sexual, gravidez na adolescência, uso de álcool e cigarro eletrônico, automutilação e, sobretudo, isolamento.No outro extremo, os idosos são o ponto cego da campanha. No Brasil, quem tem mais de 60 anos morre por suicídio a 8,9 por 100 mil, contra 5,5 da média nacional. Acima de 70 anos, a taxa sobe para quase 15 por 100 mil, a maior de todas as faixas etárias. Homens idosos morrem a 14,8 por 100 mil, mulheres idosas a 2,6. São mortes por enforcamento e arma de fogo, com poucos avisosanteriores.O que mata não é só depressão: é doença crônica, perda de autonomia, dependência funcional, luto, viuvez e a pressão de continuar sendo provedor com aposentadoria baixa. É a mesma morte de si, mas por sentir que já não tem mais lugar no mundo.“Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes”É justamente essa solidão que aparece com mais força quando quem fala são pessoas LGBTQIAPN+. No artigo “Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes”, publicado este ano na Saúde em Debate, 12 pessoas da Grande Vitória, no Espírito Santo, foram convidadas a falar sobre suicídio a partir da música AmarElo, de Emicida.O refrão que dá título ao estudo diz tudo: “Achar que essas mazelas me definem é o pior dos crimes. É dar o troféu pro nosso algoz e fazer nóis sumir”.Os depoimentos são diretos. Uma travesti relata: “Essas microagressões, a falta de afeto parental e de amizade. A solidão é um fator bastante precursor de pensamentos suicidas”.A pesquisa confirma: viver em família que não apoia aumenta em 20% o risco. E critica os serviços de saúde que ficam “enraizado em anamnese”, esquecendo de perguntar o nome social e oferecer escuta.É o que o psiquiatra e psicanalista Marcelo Veras, da UFBA, chama em seu livro “A morte de si” (2023) de primeira morte. Para ele, ninguém se mata do nada. Primeiro morre o “si”, a possibilidade de ser reconhecido, desejado, amado. O suicídio físico é só o segundo tempo.“Ser permanentemente segregado é um tipo de suicídio”, escreve Veras.A selva e a escutaEm 1986, muito antes do Instagram, o psicanalista Jurandir Freire Costa já alertava em “Violência e Psicanálise”: “Todo indivíduo deve defender sua saúde e bem-estar […] reforçar a velha representação do mundo como uma selva, onde cada um tem de lutar como pode para sobreviver”.Para Costa, o perigo é transformar sofrimento coletivo em culpa individual.Como sair da selva? O psiquiatra Neury Botega, da Unicamp, responde com um manifesto: “Mas eu não atarei as tuas mãos” (2023). A psiquiatria antiga continha, amarrava. A nova desata a fala. Botega propõe três gestos simples: suspeitar, escutar e conduzir. Suspeitar que aquela pessoa quieta pode estar pensando em morrer. Escutar sem pressa de dar sermão moral ou religioso. E conduzir ativamente até ajuda – CVV 188, CAPS, emergência.Neste Setembro Amarelo, a lição é a mesma: prevenir não é ensinar cada um a lutar melhor sozinho na selva. É garantir território, afeto, futuro, pertencimento e alguém que escute.Se você ou alguém que conhece precisa de ajuda, ligue 188 – CVV. Atendimento gratuito, 24 horas.José Antônio Borges Pereira é procurador de Justiça do Estado de Mato Grosso e titular da Procuradoria de Justiça Especializada na Defesa da Cidadania, Consumidor, Direitos Humanos, Minorias, Segurança Alimentar e Estado Laico.Fonte: Dados, conceitos e referências bibliográficas sistematizados a partir da palestra “É possível prevenir o suicídio?”, ministrada pela psiquiatra Juliana Belo Diniz, realizada em 22/09/2026 no Ministério Público de Mato Grosso (MPMT).Referências apresentadas na palestra: AVELAR & COQUEIRO (2025) – Saúde em Debate; BOTEGA (2023) – Unicamp; COSTA, J.F. (1986) – Graal; COSTA et al. (2024) – Saúde em Debate; SOUZA & ORELLANA (2023) – The Lancet Regional Health; VERAS (2023) – Ed. Cult; BRASIL/MS/DATASUS/SIM e CFM 2024.

Fonte: Ministério Público MT – MT

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Membros discutem aplicações da IA no Tribunal do Júri

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Ferramentas capazes de resumir processos, organizar provas, elaborar apresentações e auxiliar na construção de teses para o Tribunal do Júri estiveram no centro dos debates do colóquio “IA no Júri”, realizado nesta sexta-feira (9) pelo Ministério Público de Mato Grosso (MPMT).O encontro reuniu membros do Ministério Público Brasileiro para compartilhar experiências sobre o uso da inteligência artificial como aliada da atuação ministerial, sem abrir mão da supervisão humana e dos cuidados éticos exigidos pela atividade.Promovido pelo Centro de Estudos e Aperfeiçoamento Funcional (Ceaf) – Escola Institucional do MPMT, em parceria com o Centro de Apoio Operacional (CAO) Júri e a Confraria do Júri, o evento teve como palestrante o promotor de Justiça Leoni Carvalho Neto, que apresentou aplicações práticas da inteligência artificial na atividade ministerial, especialmente na preparação de julgamentos perante o Tribunal do Júri.Na abertura, o coordenador do CAO Júri, promotor de Justiça César Danilo Ribeiro de Novais, ressaltou a importância do compartilhamento de conhecimento e destacou os ganhos de produtividade proporcionados pela tecnologia.Segundo o promotor de Justiça, a inteligência artificial tem reduzido significativamente o tempo necessário para a preparação dos casos. “Tenho reduzido de forma considerável o tempo de estudo e melhorado muito a qualidade dos meus júris”, afirmou.Ao longo da exposição, o promotor de Justiça Leoni Carvalho Neto demonstrou como diferentes plataformas podem ser utilizadas para analisar processos, organizar elementos probatórios, gerar apresentações para plenário, elaborar documentos e apoiar a construção de estratégias argumentativas. Para o palestrante, o avanço da tecnologia exige adaptação dos profissionais do Direito. “A inteligência artificial veio para ficar. Temos que nos adaptar”, destacou.O promotor também enfatizou que a utilização dessas ferramentas representa uma oportunidade para otimizar o trabalho dos membros do Ministério Público sem substituir a análise humana.“É um ganho imensurável de tempo, que é o nosso bem mais precioso”, observou. Ele ainda alertou sobre a necessidade de revisão constante dos conteúdos produzidos pelas plataformas. “Por mais confiável que a IA seja, sempre faço uma revisão do texto”, ressaltou.Durante o debate, também foram abordados aspectos relacionados à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), à segurança das informações e aos limites éticos para o uso da inteligência artificial na atuação ministerial. A discussão reforçou a importância de que as ferramentas tecnológicas sejam empregadas como apoio ao trabalho jurídico, sempre sob supervisão dos membros do Ministério Público.

Fonte: Ministério Público MT – MT

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