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Faça a Kátia Cega na política

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“Não está sendo fácil.” Se você tem mais de 30 anos, provavelmente leu isso no ritmo da Kátia. Se não, dê um Google, vale a pena. Em 1987, a cantora, que era cega, virou a musa de um Brasil que saía da ditadura, mas entrava numa crise econômica de dar inveja a qualquer filme de terror. Mal sabia ela que sua música se tornaria a trilha sonora não oficial do Brasil do século XXI, um país que parece viver em uma eterna encruzilhada, tipo final de novela ruim.

A genialidade brasileira, sempre ela, transformou a condição da cantora em uma expressão popular: “fazer a Kátia cega”. O que isso significa? Basicamente, é a arte de olhar para um elefante cor-de-rosa na sala e dizer: “que belo tapete bege!”. É fingir que não viu, que não é com você, que a realidade é apenas um detalhe. E, como bons brasileiros, levamos essa arte a um novo patamar na política. Hoje, “fazer a Kátia cega” é um esporte nacional. Cada um escolhe os fatos como quem escolhe o sabor da pizza, ignorando solenemente tudo o que não combina com a sua “bolha”. E o mais divertido? Todo mundo jura que só o outro lado faz isso. A direita, a esquerda, o centro… todos mestres na nobre arte da cegueira seletiva. E os políticos? Ah, eles adoraram. Falam apenas para a sua torcida, como se o resto do país fosse um mero detalhe no cenário.

E quando a gente acha que já entendeu o buraco em que nos metemos, vem o cientista político Felipe Nunes com seu livro “Brasil no Espelho” e joga um balde de água fria (com gelo) na nossa cabeça. Ele basicamente nos diz que, em vez de avançar, pegamos um DeLorean e voltamos para os anos 90. Segundo Nunes, as crises dos últimos anos nos fizeram regredir a um estado de espírito pré-Plano Real. Trocamos o bem-estar e a tolerância pela boa e velha combinação de “tradição, família e propriedade” (só que sem a propriedade, porque a economia não deixa). “Mudanças muito rápidas fizeram as pessoas voltarem a se fechar”, diz ele. Ou seja, voltamos para a época em que a Kátia era a rainha das paradas de sucesso. A diferença? Hoje, a nossa “cegueira” é gourmet. É uma escolha consciente, uma estratégia de sobrevivência para não surtar com o excesso de informações (e desinformações).

Quais os efeitos colaterais dessa “Kátia cega” coletiva? O primeiro é a polarização tóxica, essa briga de torcidas organizadas que chamamos de debate político. O diálogo vira uma espécie de unicórnio: todo mundo fala, mas ninguém nunca viu. A verdade? Coitada, é a primeira a ser atropelada. E assim, a gente fica paralisado, incapaz de resolver qualquer problema que exija mais do que um meme como solução.

No fim das contas, o maior prejuízo talvez seja a morte da esperança. A música da Kátia, com toda a sua melancolia, ainda tinha um quê de “vai passar”. O “não está sendo fácil” era um desabafo, mas também um convite para levantar a cabeça. Hoje, ao “fazermos a Kátia cega”, corremos o risco de apagar a luz no fim do túnel. A cegueira que nos aflige não é a da artista que nos fez cantar junto, mas a de uma nação que, por medo ou pura conveniência, se recusa a encarar o próprio reflexo no espelho. E, convenhamos, talvez seja melhor assim. Vai que a gente não gosta do que vê e descobre que precisa mudar?

Andhressa Barboza é jornalista e socióloga.

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Quando perder músculo também ameaça o cérebro

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Durante muito tempo, falar em obesidade significava olhar apenas para o peso e para o IMC. Hoje sabemos que isso é insuficiente.

Duas pessoas com o mesmo peso podem ter condições completamente diferentes. Uma pode apresentar boa massa muscular e força preservada. A outra pode acumular gordura, especialmente abdominal, enquanto perde músculo e capacidade funcional.

Essa combinação é chamada de obesidade sarcopênica.

Ela reúne dois problemas importantes: excesso de gordura corporal e redução da massa ou da força muscular. Além de aumentar o risco de fragilidade, quedas, diabetes e doenças cardiovasculares, novas evidências mostram que essa condição também pode estar associada a maior risco de demência.

O que a ciência mostra :

 

Um grande estudo publicado na revista Clinical Nutrition avaliou dados de centenas de milhares de pessoas e analisou a relação entre composição corporal, força muscular e desenvolvimento de demência.

Os resultados mostraram que tanto a sarcopenia isolada quanto a obesidade sarcopênica estavam associadas a um risco maior de declínio cognitivo. Um dos achados mais relevantes foi a importância da força de preensão manual, medida por dinamometria.

Quanto menor a força e quanto maior sua redução ao longo dos anos ,maior foi o risco observado.

Isso reforça uma mudança importante na forma de avaliar a saúde: Não basta saber quanto peso uma pessoa perdeu. Precisamos saber quanto músculo e quanta força ela conseguiu preservar.

Emagrecer , nem sempre significa melhorar a saúde ?

 

Uma perda de peso mal conduzida pode incluir perda significativa de massa muscular, principalmente em pessoas mais velhas, sedentárias, submetidas a dietas muito restritivas ou a tratamentos sem acompanhamento adequado.

Mesmo com o avanço dos medicamentos para obesidade, o objetivo não deve ser apenas reduzir o número na balança. O tratamento precisa preservar músculo, reduzir gordura visceral, melhorar o metabolismo e manter a autonomia.

O paciente não deve apenas ficar mais leve. Deve ficar mais saudável, mais forte e funcionalmente mais capaz.

Por que o músculo influencia a saúde cerebral?

A relação entre músculo e cérebro é complexa, mas alguns mecanismos ajudam a explicá-la.

A perda muscular pode piorar a resistência à insulina, reduzir o gasto energético, aumentar o sedentarismo e favorecer inflamação crônica. Ao mesmo tempo, fatores como hipertensão, diabetes, apneia do sono e colesterol elevado afetam os vasos sanguíneos que irrigam tanto o coração quanto o cérebro.

Por isso, preservar músculo é muito mais do que uma questão estética. É uma estratégia de proteção metabólica, cardiovascular, funcional e possivelmente cognitiva.

Como enfrentar cientificamente esse problema ?

 

O primeiro passo é avaliar mais do que o peso. Circunferência abdominal, composição corporal, força de preensão, velocidade da marcha, capacidade funcional e exames cardiometabólicos ajudam a identificar riscos que o IMC isolado não mostra.

O treinamento de força deve ocupar posição central. Caminhar é importante, mas pode não ser suficiente para preservar ou recuperar massa muscular. Exercícios resistidos, progressivos e individualizados são fundamentais.

A alimentação também precisa garantir quantidade adequada de proteínas e energia, distribuídas ao longo do dia e ajustadas à idade, função renal, rotina e condição clínica.

Além disso, é essencial tratar fatores que aceleram a perda muscular e o envelhecimento vascular, como sedentarismo, diabetes, hipertensão, alterações do sono, tabagismo e obesidade visceral.

Envelhecer bem ,exige preservar força

A obesidade sarcopênica mostra por que o cuidado não pode ser fragmentado. Peso, metabolismo, coração, músculo e cérebro fazem parte do mesmo sistema.

Entendemos que o acompanhamento precisa ir além da balança. Avaliamos composição corporal, força, risco cardiovascular, alimentação, sono, rotina e capacidade funcional para construir estratégias verdadeiramente individualizadas.

Porque o objetivo não é apenas perder peso. É preservar autonomia, proteger o cérebro, fortalecer o corpo e construir saúde antes que a doença se manifeste.

 

Saúde não é sorte. É rotina.

Dr. Max Wagner de LimaCardiologista — CRM 6194 | RQE 2308
Prevenção cardiovascular, cardiometabolismo e medicina de antecipação.

Maristela Luft — CRN -16431Nutricionista e Mestre em nutrição clínica, composição corporal e cuidado cardiometabólico.

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