Opinião
Fiscalização Sanitária: por que o Brasil precisa evoluir de um modelo punitivo para um modelo orientador
Opinião
Por Luís Köhler
No Brasil, a vigilância sanitária desempenha um papel essencial para proteger a população. Sem fiscalização, não há segurança. Porém, um modelo baseado quase exclusivamente em punição não melhora processos, não qualifica serviços e nem aproxima o Estado da sociedade. É hora de evoluir para uma abordagem orientadora, preventiva e tecnicamente sustentável.
Durante anos, estabelecimentos de saúde — especialmente as farmácias — passaram a ver a fiscalização como um momento de tensão. O medo constante de autuação paralisa profissionais e afasta o foco do cuidado. Quando isso acontece, quem perde é o paciente.
Países que modernizaram seus sistemas adotaram uma lógica simples:
Ensinar antes de punir. Padronizar antes de autuar. Prevenir antes de sancionar.
Os resultados são claros: mais segurança sanitária, menos infrações e melhores práticas. Punição corrige o passado; quem forma o futuro é a orientação.
O farmacêutico sente diariamente o peso da responsabilidade técnica, ética e até civil — muitas vezes sem treinamento adequado, sem manuais atualizados e sem suporte da empresa. Ainda assim, é ele quem responde diante do fiscal. É legítimo exigir tanto sem oferecer o suporte necessário? A resposta é evidente.
A fiscalização moderna deve atuar como parceira do serviço de saúde. Fiscalizar não é punir; é proteger a saúde pública. Isso só se consolida quando fiscalização e estabelecimento se reconhecem como partes da mesma cadeia de proteção.
Para avançar, o Brasil precisa fortalecer três pilares:
1. Educação sanitária contínua: visitas orientativas, guias didáticos, comunicação permanente.
2. Fiscalização justa, técnica e padronizada: critérios claros, menor variação interpretativa e decisões baseadas no real risco sanitário.
3. Punição proporcional: necessária, mas como última etapa, não como ferramenta central.
Os melhores resultados surgem do diálogo, não da imposição. Quando o Estado orienta, o setor responde. Quando explica, o serviço melhora. A vigilância sanitária brasileira tem capacidade e profissionais qualificados; falta modernizar diretrizes, integrar dados e reduzir distorções regionais que fazem o mesmo ato ser interpretado de maneiras diferentes no país.
O Brasil tem a oportunidade de elevar seu modelo de fiscalização para um patamar mais eficiente e humano — que protege, orienta, capacita e responsabiliza de forma justa. Profissionais bem-informados erram menos, e serviços bem orientados oferecem mais segurança à população.
No fim, fiscalização não é sobre multar. É sobre cuidar. E cuidado se constrói com presença, técnica, responsabilidade e humanidade.
*Luís Köhler é farmacêutico, especialista em Regulação Sanitária e Conselheiro Federal de Farmácia eleito 2027-30 (MT).
Opinião
Quando perder músculo também ameaça o cérebro
Durante muito tempo, falar em obesidade significava olhar apenas para o peso e para o IMC. Hoje sabemos que isso é insuficiente.
Duas pessoas com o mesmo peso podem ter condições completamente diferentes. Uma pode apresentar boa massa muscular e força preservada. A outra pode acumular gordura, especialmente abdominal, enquanto perde músculo e capacidade funcional.
Essa combinação é chamada de obesidade sarcopênica.
Ela reúne dois problemas importantes: excesso de gordura corporal e redução da massa ou da força muscular. Além de aumentar o risco de fragilidade, quedas, diabetes e doenças cardiovasculares, novas evidências mostram que essa condição também pode estar associada a maior risco de demência.
O que a ciência mostra :
Um grande estudo publicado na revista Clinical Nutrition avaliou dados de centenas de milhares de pessoas e analisou a relação entre composição corporal, força muscular e desenvolvimento de demência.
Os resultados mostraram que tanto a sarcopenia isolada quanto a obesidade sarcopênica estavam associadas a um risco maior de declínio cognitivo. Um dos achados mais relevantes foi a importância da força de preensão manual, medida por dinamometria.
Quanto menor a força e quanto maior sua redução ao longo dos anos ,maior foi o risco observado.
Isso reforça uma mudança importante na forma de avaliar a saúde: Não basta saber quanto peso uma pessoa perdeu. Precisamos saber quanto músculo e quanta força ela conseguiu preservar.
Emagrecer , nem sempre significa melhorar a saúde ?
Uma perda de peso mal conduzida pode incluir perda significativa de massa muscular, principalmente em pessoas mais velhas, sedentárias, submetidas a dietas muito restritivas ou a tratamentos sem acompanhamento adequado.
Mesmo com o avanço dos medicamentos para obesidade, o objetivo não deve ser apenas reduzir o número na balança. O tratamento precisa preservar músculo, reduzir gordura visceral, melhorar o metabolismo e manter a autonomia.
O paciente não deve apenas ficar mais leve. Deve ficar mais saudável, mais forte e funcionalmente mais capaz.
Por que o músculo influencia a saúde cerebral?
A relação entre músculo e cérebro é complexa, mas alguns mecanismos ajudam a explicá-la.
A perda muscular pode piorar a resistência à insulina, reduzir o gasto energético, aumentar o sedentarismo e favorecer inflamação crônica. Ao mesmo tempo, fatores como hipertensão, diabetes, apneia do sono e colesterol elevado afetam os vasos sanguíneos que irrigam tanto o coração quanto o cérebro.
Por isso, preservar músculo é muito mais do que uma questão estética. É uma estratégia de proteção metabólica, cardiovascular, funcional e possivelmente cognitiva.
Como enfrentar cientificamente esse problema ?
O primeiro passo é avaliar mais do que o peso. Circunferência abdominal, composição corporal, força de preensão, velocidade da marcha, capacidade funcional e exames cardiometabólicos ajudam a identificar riscos que o IMC isolado não mostra.
O treinamento de força deve ocupar posição central. Caminhar é importante, mas pode não ser suficiente para preservar ou recuperar massa muscular. Exercícios resistidos, progressivos e individualizados são fundamentais.
A alimentação também precisa garantir quantidade adequada de proteínas e energia, distribuídas ao longo do dia e ajustadas à idade, função renal, rotina e condição clínica.
Além disso, é essencial tratar fatores que aceleram a perda muscular e o envelhecimento vascular, como sedentarismo, diabetes, hipertensão, alterações do sono, tabagismo e obesidade visceral.
Envelhecer bem ,exige preservar força
A obesidade sarcopênica mostra por que o cuidado não pode ser fragmentado. Peso, metabolismo, coração, músculo e cérebro fazem parte do mesmo sistema.
Entendemos que o acompanhamento precisa ir além da balança. Avaliamos composição corporal, força, risco cardiovascular, alimentação, sono, rotina e capacidade funcional para construir estratégias verdadeiramente individualizadas.
Porque o objetivo não é apenas perder peso. É preservar autonomia, proteger o cérebro, fortalecer o corpo e construir saúde antes que a doença se manifeste.
Saúde não é sorte. É rotina.
Dr. Max Wagner de LimaCardiologista — CRM 6194 | RQE 2308 Prevenção cardiovascular, cardiometabolismo e medicina de antecipação.
Maristela Luft — CRN -16431Nutricionista e Mestre em nutrição clínica, composição corporal e cuidado cardiometabólico.
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