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Da timidez à autoconfiança: como a música muda trajetórias

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*Por Manoel Izidoro

Ao longo dos anos, presenciei histórias que vão muito além das notas e partituras. Lembro dos olhares tímidos, das mãos trêmulas diante de um instrumento ou de uma apresentação, e de como, com o tempo, a música conseguiu transformar medo em coragem, hesitação em expressão. Cada aluno que chega cheio de receios traz consigo um universo de emoções, e a música tem o poder de acolher, desafiar e fortalecer essas experiências.

Aprender música é, acima de tudo, aprender a se expressar. Cada acorde, cada ritmo, cada prática diária ensina algo que vai muito além da técnica, proporcionando disciplina, perseverança e autoconfiança. Muitos chegam com receio de errar, com vergonha de mostrar seu talento, mas, aos poucos, percebem que errar faz parte do processo, que a prática constante traz segurança, e que a música é uma aliada para encontrar a própria voz.

Esse processo de descoberta tem um poder transformador porque exige total presença. Ao tocar um instrumento ou cantar, é impossível se esconder. Cada nota é um convite à autodescoberta, e o aluno aprende não só a dominar seu instrumento, mas também a acreditar em si mesmo, a comunicar-se com o outro e a assumir seu espaço no mundo. Essa experiência ensina coragem, paciência e resiliência, virtudes que reverberam em todas as áreas da vida.

E essa transformação não acontece apenas com jovens aspirantes a músicos. Adultos que retornam à música, muitas vezes depois de décadas, experimentam o mesmo processo: timidez e insegurança se transformam em autoconfiança e realização pessoal. É uma prova de que nunca é tarde para aprender, se reinventar ou redescobrir talentos adormecidos. A melodia executada se torna um lembrete de que o crescimento é contínuo, e que a arte sempre oferece caminhos de superação.

Na música, como na vida, a coragem se constrói nota a nota. E a verdadeira recompensa de ensinar não está apenas nas apresentações, mas em ver cada pessoa transformar a própria trajetória, passando de um silêncio tímido para uma melodia cheia de confiança. A música mostra que expressar-se é um direito e uma oportunidade de se descobrir, de se afirmar e de celebrar a própria identidade.

 

*Manoel Izidoro é professor e proprietário da Escola de Música IGC de Cuiabá.

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ELIÇÕES NO BRASIL QUARENTA ANOS DEPOIS O PÊNDULO POLÍTICO MUDOU DE LADO

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Há eleições que simplesmente escolhem governantes e parlamentares. Outras encerram ciclos, reorganizam forças e revelam mudanças profundas na sociedade. O Brasil viveu uma dessas eleições em 1986. Quarenta anos depois, em 2026, parece viver um movimento de direção inversa.

Em 1986, o país ainda respirava os primeiros ares da redemocratização depois de 21 anos de regime militar, iniciado em 1964. A eleição ocorreu sob o impacto da Nova República, das Diretas Já, da eleição de Tancredo Neves e também da enorme popularidade inicial do Plano Cruzado. O resultado foi avassalador: o PMDB conquistou 22 dos 23 governos estaduais e elegeu 260 dos 487 deputados federais e sozinho, 53% da Câmara. Na eleição para o Senado, conquistou 38 das 49 vagas então disputadas.

Do outro lado estava principalmente o sistema partidário que carregava parte da herança política do regime anterior. O PDS, sucessor da Arena, que sustentara politicamente os governos militares, sofreu uma derrota histórica: ficou com apenas 33 deputados federais, dois senadores eleitos e nenhum governador. O PFL, nascido de uma dissidência do próprio PDS e aliado do governo Sarney, porém, conquistou 118 deputados. Isso demonstra que 1986 não representou simplesmente uma vitória da “esquerda”, mas uma gigantesca reorganização do poder em favor das forças da redemocratização.

O próprio PMDB reunia correntes progressistas, moderadas e conservadoras. Tanto que, durante a Assembleia Constituinte, uma parcela importante de seus parlamentares participou do chamado Centrão. Ainda assim, naquele momento histórico, conceitos como democracia, direitos sociais, participação popular, ampliação das liberdades e construção de uma nova ordem constitucional ocupavam o centro da agenda nacional. O Congresso eleito em 1986 produziria a Constituição de 1988.

Quarenta anos depois, o pêndulo mudou de direção.
As eleições de 2026 apresentam uma fotografia quase inversa na correlação de forças. O PL elegeu 121 dos 513 deputados federais, ampliando sua bancada em 24 cadeiras e tornando-se, com enorme vantagem, o maior partido da Câmara. A federação PT-PCdoB-PV ficou com 82 deputados.
No Senado, a mudança é ainda mais impressionante. Das 54 cadeiras disputadas, o PL conquistou 19. Considerados também os parlamentares com mandato até 2030 e as alterações decorrentes das eleições estaduais, a legenda deverá iniciar 2027 com 28 dos 81 senadores, contra nove do PT e oito do MDB. Será a maior bancada partidária no início de uma legislatura do Senado desde a Constituição de 1988.

O simbolismo histórico é extraordinário. Em 1986, o PMDB conquistou 38 das 49 cadeiras senatoriais em disputa; em 2026, o PL conseguiu 19 das 54. São magnitudes diferentes, mas os dois resultados expressam momentos de forte reorganização do sistema político. Em 1986, o partido identificado com a redemocratização ocupava o centro do poder. Em 2026, uma força política de identidade predominantemente conservadora assume a maior bancada das duas Casas do Congresso.

Há, portanto, uma interessante simetria histórica. 1986 foi uma eleição marcada pelo desejo de afastamento da ordem política construída durante o regime militar; 2026 revela o fortalecimento de forças conservadoras depois de quatro décadas nas quais direitos sociais, Constituição de 1988 e agendas progressistas tiveram enorme presença no debate político brasileiro.

Isso não significa que o Brasil tenha permanecido progressista durante quarenta anos, tampouco que tenha se tornado integralmente conservador agora. A história política brasileira nunca foi tão linear. Houve governos de centro, centro-direita, centro-esquerda e coalizões extremamente heterogêneas. O próprio segundo turno presidencial de 2026 ainda será disputado, demonstrando que a sociedade permanece profundamente dividida.
Mas o Congresso que saiu das urnas oferece um dado impossível de ignorar: o conservadorismo deixou de ser apenas uma força de resistência às mudanças e passou a ocupar uma posição central na organização institucional do poder.

Em 1986, o eleitor brasileiro ajudou a enterrar eleitoralmente boa parte da estrutura partidária herdada do regime militar. Em 2026, quarenta anos depois, o eleitorado promove outra mudança de eixo.
A história raramente se repete da mesma maneira. Ela trabalha por movimentos, contradições e reações. O pêndulo que em 1986 se deslocou em direção à redemocratização e à expansão dos direitos agora se movimenta em direção ao conservadorismo.
Quarenta anos depois, não estamos assistindo à repetição de 1986. Estamos assistindo, em muitos aspectos, ao seu movimento inverso.

* João Edisom de Souza – Analista político e professor universitário

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