Cultura
Em Cachoeira, BA, começa a Festa da Nossa Senhora da Boa Morte
Cultura
Com mais de 200 anos de história, começa nesta quarta-feira, na cidade histórica de Cachoeira, no recôncavo baiano, a Festa da Nossa Senhora da Boa Morte. Todo ano, no mês de agosto, a festa une religiosidade e tradição popular em uma celebração afrobrasileira.

Organizada pela Irmandade da Nossa Senhora da Boa Morte, que conta apenas com a participação de mulheres negras, a comemoração ancestral tem tanto valor que é reconhecida como patrimônio cultural imaterial brasileiro.
A Irmandade secular tem suas raízes na devoção a Nossa Senhora da Boa Morte e Nossa Senhora da Glória, santas católicas, e também na ancestralidade do povo negro.
A programação começa nesta quarta com o dia dedicado às irmãs falecidas. As mulheres se vestem de branco e saem em procissão carregando a imagem postada sobre um andor, rumo à Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário.
Na quinta-feira, com a imagem de Nossa Senhora da Boa Morte, as irmãs saem da sede da Irmandade em procissão noturna. Carregam velas, entoam cânticos durante o cortejo e fazem menção à dormição de Nossa Senhora.
Em Salvador, a devoção à santa é registrada desde o séc. XIX, com a criação de uma Irmandade exclusivamente feminina, na Igreja da Barroquinha.
A transferência dessa Irmandade para a cidade de Cachoeira se deu por volta de 1820. A devoção surgiu vinculada a um pedido feito por africanas à Nossa Senhora da Boa Morte pelo fim da escravidão.
A festa da Boa Morte se prolonga até o domingo, com muito samba de roda e uma farta ceia durante os cinco dias.
Cultura
Ao poeta, poesia: amigos se despendem de Luis Turiba neste sábado (29)
DESACONTESSÊNCIAS

desaconteci
(mentavelmente)
tudo acontece para
desacontecer em si
anoitece para amanhecer
nascer viver crescer morrer
tecer escrituras em silêncios
semânticas em pura seda
Luis Turiba desaconteceu na madrugada de 26 de agosto, em Salvador, aos 76 anos. Poeta, ativista cultural, jornalista. Nascido no Recife, em 1950, Turiba deixa cinco filhos, seis netos e uma ampla obra, que inclui poesias, crônicas, textos jornalísticos, video-documentários, revistas culturais e parcerias musicais.
Seu primeiro livro de poesia, Kiprokó, foi lançado em 1977. No Rio de Janeiro, pra onde se mudou ainda jovem, conseguiu emprego como repórter, iniciando uma bem-sucedida carreira com passagens pela revista Manchete e pelos jornais O Globo e Gazeta Mercantil. Foi como correspondente da Gazeta que Turiba mudou-se para Brasília, em 1979. Ganhou vários prêmios por suas reportagens, inclusive dois Esso regionais.
Amigo de Turiba desses tempos de início de Brasília, o poeta Nicolas Behr conta que conversou com o amigo na véspera do falecimento
“Não esperava essa notícia. Grande agitador cultural, um homem de ideias e de realizações, que fazia poeta, jornalista, atuante, ativo, presente. Editor da revista Brica Brac, né? Essa revista que nos anos 80 entrou para a história da literatura a história das história das revistas literárias brasileiras do século passado. Grande Turiba, só temos que celebrar sua memória, sua eterna presença entre nós.”
A revista cultural Bric-a-Brac foi editada entre 1985 e 2022. A publicação extrapolou os limites do Distrito Federal, entrevistando intelectuais e artistas como Caetano Veloso e Paulinho da Viola; Nise da Silveira; Manoel de Barros, entre outras personalidades.
Em sua trajetória, passou pela assessoria de comunicação do ministério da Cultura, que soltou nota lamentando a morte de Turiba e afirmando que o jornalista “participou de momentos importantes da história do próprio MinC”.
O Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal lembrou que “além de sua escrita afiada nas redações, Turiba foi um símbolo vivo da resistência democrática que marca a história da categoria. Militante histórico, ele sofreu severa perseguição política, prisão e tortura durante o regime militar”.
Em agosto de 2024, a Comissão de Anistia concedeu anistia política a Turiba, reconhecendo que a farta documentação que o escritor reuniu e apresentou ao colegiado comprova que, durante a ditadura, ele foi perseguido por razões políticas, tendo sido monitorado pelo Serviço Nacional de Informações (SNI) até meados da década de 1980. Além da condição de anistiado, Turiba recebeu do Estado brasileiro um pedido formal de desculpas.
Após anos atuando como assessor do Ministério da Cultura, aposentou-se no início da década de 2010 para dedicar-se exclusivamente à literatura. Viveu os últimos anos entre o Rio de Janeiro, Salvador e Brasília.
Neste sábado, amigos prestam a última homenagem no Beirute, tradicional restaurante de Brasília. Reduto de muitos encontros e acontecências.
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