Agricultura
Solo bem manejado eleva rendimento e dobra ajuda do governo no seguro rural, diz Embrapa
Agricultura
Uma pesquisa da Embrapa Agropecuária Oeste, realizada durante 28 safras em Dourados, em Mato Grosso do Sul, mostrou que cada avanço na qualidade do manejo do solo acrescentou 11,1 pontos percentuais à produtividade relativa da soja. O resultado já terá efeito no bolso do produtor: na safra 2026/27, as lavouras classificadas no nível mais alto poderão receber o dobro da subvenção federal destinada ao pagamento do seguro rural.
O estudo acompanhou cultivos entre 1998 e 2026 e reuniu informações de mais de 4,3 mil pontos georreferenciados. Os pesquisadores compararam desde áreas conduzidas com preparo convencional e monocultura até sistemas de plantio direto, rotação de culturas e integração lavoura-pecuária.
No nível mais baixo de manejo, chamado NM1, a produtividade relativa média ficou em 44%. No NM2, subiu para 55,1%; no NM3, chegou a 66,2%; e, no NM4, alcançou 77,2%. A diferença entre os dois extremos foi de 33,2 pontos percentuais. Em termos relativos, o desempenho do melhor sistema ficou aproximadamente 75% acima do registrado no pior.
Os números não significam, porém, que a mudança de nível acrescentará automaticamente determinada quantidade de sacas por hectare. A produtividade real variou de cerca de duas a 90 sacas por hectare ao longo das 28 safras, conforme o volume e a distribuição das chuvas. O indicador serve para mostrar quanto cada sistema conseguiu produzir diante das condições climáticas enfrentadas.
A vantagem do manejo mais eficiente apareceu principalmente nos anos com deficiência hídrica moderada. A cobertura permanente do solo reduz a perda de água por evaporação, enquanto a rotação de culturas e a presença de raízes em diferentes profundidades favorecem a infiltração e o armazenamento de umidade.
“Solos bem manejados armazenam mais água e permitem que as raízes explorem camadas mais profundas”, explica o pesquisador Júlio Cesar Salton, da Embrapa Agropecuária Oeste.
O manejo não elimina os prejuízos provocados por uma estiagem extrema. Em algumas das safras acompanhadas, áreas de cultivo convencional chegaram a registrar perda total. Os sistemas mais estruturados também sofreram redução de produtividade, mas apresentaram maior capacidade de suportar períodos menos severos de falta de chuva.
A conclusão tem peso especial em Mato Grosso do Sul, onde a soja da safra 2026/27 começa a ocupar uma área estimada em 4,87 milhões de hectares. A Aprosoja/MS projeta produtividade média de 52,4 sacas por hectare e produção de 15,33 milhões de toneladas. Na temporada anterior, a média estadual chegou a 60,4 sacas por hectare.
Além de influenciar o rendimento, a qualidade do manejo passará a interferir no custo do seguro. Na fase experimental do Zoneamento Agrícola de Risco Climático por Níveis de Manejo, o ZarcNM, a subvenção federal ao prêmio do seguro da soja será de 20% para o NM1, 30% para o NM2, 35% para o NM3 e 40% para o NM4.
Na prática, a porcentagem incide sobre o preço da apólice, e não sobre o valor total da lavoura. Em um exemplo simples, se o prêmio do seguro custar R$ 100 mil, um produtor classificado como NM1 receberá R$ 20 mil de subvenção e ficará responsável por R$ 80 mil. No NM4, a ajuda sobe para R$ 40 mil e o desembolso do produtor cai para R$ 60 mil, antes da aplicação de eventuais limites do programa.
A diferença representa redução de 25% no valor pago pelo agricultor nesse exemplo. A proposta é reconhecer que áreas conduzidas com melhor cobertura, rotação e correção do solo apresentam menor vulnerabilidade às oscilações climáticas.
“Isso contribui para o acesso mais justo ao seguro agrícola, pois considera não apenas o clima e o solo, mas também a forma como o produtor conduz a lavoura”, afirma a pesquisadora Michely Tomazi.
Para a soja, o ZarcNM será adotado experimentalmente na safra 2026/27 em Mato Grosso do Sul e nos estados da Região Sul. O sistema também será utilizado para o milho segunda safra em Mato Grosso do Sul e no Paraná.
A classificação considera seis indicadores: tempo sem revolvimento do solo, cobertura antes da semeadura, saturação por bases na camada superficial, presença de cálcio em profundidade, saturação por alumínio no subsolo e diversidade de culturas nos três anos anteriores.
O produtor interessado deverá começar pela análise do solo. Os resultados serão inseridos no Sistema de Informações de Níveis de Manejo. Dados sobre a propriedade, o histórico da área e as culturas utilizadas completarão a avaliação.
O novo modelo não premiará apenas quem declara utilizar plantio direto. Será necessário demonstrar a qualidade do sistema. Para o agricultor que já mantém palhada, faz rotação, corrige o perfil do solo e registra o histórico dos talhões, a organização dessas informações poderá significar maior resistência da lavoura à seca e menor custo para contratar o seguro rural.
Agricultura
Nova bancada deve priorizar o crédito rural e a previsibilidade para o financiamento
A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) projeta ampliar de 299 para 330 o número de integrantes na Câmara dos Deputados na legislatura que começa em 2027. A estimativa, apresentada pelo presidente da frente, deputado Pedro Lupion, representa crescimento de 10,4%. A agenda para o novo mandato terá como prioridades ampliar o acesso ao crédito rural e dar previsibilidade ao financiamento da produção.
A composição reúne experiência nas duas Casas. Dos atuais 299 integrantes da FPA na Câmara dos Deputados, 176 foram reeleitos. Outros 17 deputados conquistaram vagas no Senado. Entre os senadores ligados à frente, seis obtiveram novo mandato e um foi eleito deputado federal. A entidade também informa que 17 senadores estão em meio de mandato.
O total de 200 corresponde aos integrantes da atual frente que obtiveram novos mandatos no Congresso. A composição definitiva da FPA na próxima legislatura dependerá também da adesão de outros parlamentares. O balanço eleitoral, portanto, indica a continuidade de sua atuação, sem estabelecer o número final de participantes.
A expectativa para o novo período legislativo é transformar essas propostas em instrumentos que cheguem às propriedades. O avanço dependerá da construção de acordos no Congresso e da articulação com o Executivo, os agentes financeiros e as organizações de produtores.
Para Isan Rezende (foto), presidente do Instituto do Agronegócio (IA) e da Federação dos Engenheiros Agrônomos de Mato Grosso (Feagro-MT), com a ampliação da força política há uma oportunidade de se construir uma agenda de longo prazo para o campo. “A presença de mais parlamentares que conhecem a produção rural pode ajudar a transformar as necessidades das propriedades em soluções concretas. Esperamos um diálogo aberto, com decisões técnicas e atenção aos produtores de todos os portes”.
“Um crédito que chega no momento certo, acompanhado de seguro e de regras estáveis, dá ao produtor condições para investir. Podemos avançar em armazenagem, irrigação e tecnologia quando existe segurança para planejar. Um Plano Safra com horizonte de vários anos pode contribuir para esse ambiente e melhorar a aplicação dos recursos”, diz Isan.
“Também vejo com otimismo a possibilidade de aproximar o Congresso das cooperativas, das entidades e dos profissionais que acompanham o trabalho nas propriedades. Essa troca permite identificar prioridades e construir soluções viáveis. O objetivo comum deve ser ampliar a produtividade, fortalecer a renda no campo e gerar oportunidades nas regiões produtoras”, concluiu o presidente do IA.
Para o produtor, a agenda anunciada concentra-se em condições para financiar a safra e preservar a capacidade de investimento. O presidente da FPA, deputado Pedro Lupion, apontou a renegociação de dívidas e os obstáculos à contratação de crédito como temas que permanecerão nas negociações com o próximo governo.
Uma das propostas é dar ao Plano Safra um horizonte de vários anos. O planejamento plurianual permitiria sinalizar recursos e prioridades com antecedência, aproximando a política agrícola do tempo necessário para investir em máquinas, armazenagem e irrigação. A mudança ainda depende de discussão e aprovação; não constitui uma regra já definida para 2027.
Essa orientação também integra as propostas da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), que defende previsibilidade orçamentária, fortalecimento do seguro rural e instrumentos de apoio à saúde financeira do produtor. A entidade propõe ampliar o financiamento privado e melhorar as condições de acesso aos recursos, incluindo garantias e redução da burocracia.
Fonte: Pensar Agro
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