Opinião
Da crítica à proposta: o papel das entidades de classe no período eleitoral
Opinião
Todo ciclo eleitoral reacende o mesmo hábito entre eleitores e muitas entidades de classe, sindicatos, conselhos profissionais e associações setoriais: reclamar dos candidatos, apontar promessas vazias, criticar a falta de compromisso com a categoria. É um reflexo compreensível, mas, sozinho, pouco eficaz. Criticar sem propor é abrir mão do único momento em que o poder de barganha da categoria está, de fato, em alta.
A CDL Cuiabá, desde a eleição para prefeito em 2024, adotou postura diferente, quando, junto com seus associados, apresentou aos candidatos 32 propostas de ações importantes para o setor do comércio, varejo e serviços de Cuiabá. À época, todos os candidatos aderiram, e o candidato eleito ratificou as propostas após a eleição.
Para as eleições majoritárias que se avizinham, a CDL Cuiabá, ciente da importância de participar e acompanhar de forma mais próxima a atividade política em Cuiabá e no Estado de Mato Grosso, promoveu um evento denominado “Diálogo com os Candidatos”, que ocorreu nos dias 14, 15 e 16 de setembro, e foi construído em parceria com entidades coirmãs: Abrasel, Sindipetroleo, Fenabrave e Sincodiv-MT.
Cada uma das entidades apresentou aos candidatos a Governo do Estado e Senado Federal, propostas que atendem a demandas dos respectivos setores, mas também que possam contribuir para o desenvolvimento da cidade, do estado e com a melhoria da qualidade de vida daqueles que são seus clientes e consumidores.
Durante a campanha, candidatos precisam de apoio, de capilaridade, de legitimidade junto a públicos organizados. É justamente nesse momento, e não depois, quando já estão no mandato, que as entidades de classe têm mais capacidade de influência. Ignorar essa janela e se limitar a criticar publicamente é desperdiçar a fase em que o interlocutor está mais disposto a ouvir e a assumir compromissos.
Reivindicar é dizer o que está errado. Pautar é ir além: significa transformar as demandas da categoria em propostas objetivas, viáveis e mensuráveis, e apresentá-las formalmente aos candidatos, ouvindo e sendo ouvido.
As propostas foram discutidas e entregues aos candidatos, que assinaram um compromisso de buscar ao atendimento das pautas apresentadas, e por outro lado, as entidades se comprometendo a contribuir para a efetivação dessas propostas.
Houve ainda um compromisso mútuo de acompanhamento pós-eleitoral. De pouco adianta uma pauta bem elaborada se, empossado o eleito, a entidade volta ao silêncio até a próxima eleição. O acompanhamento sistemático, reuniões periódicas, relatórios de execução, cobrança formal de itens não cumpridos, é o que transforma uma promessa de campanha em política pública efetiva.
Entidades de classe que apenas criticam se colocam na posição de espectadoras de um jogo que poderiam ajudar a definir. Pautar, apresentar e acompanhar é assumir um papel propositivo: sair da reação para a construção. É esse deslocamento, de reclamar para negociar e de negociar para fiscalizar, que dá às categorias organizadas peso real na formulação das políticas que afetam diretamente seus interesses.
*Karoline Lima é advogada, mestre em Economia e Política Pública e Relações Institucionais e Governamentais da Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas
*Fabiola Sampaio é advogada, mestre em direito e Relações Institucionais e Governamentais da CDL Cuiabá
Opinião
ELIÇÕES NO BRASIL QUARENTA ANOS DEPOIS O PÊNDULO POLÍTICO MUDOU DE LADO
Há eleições que simplesmente escolhem governantes e parlamentares. Outras encerram ciclos, reorganizam forças e revelam mudanças profundas na sociedade. O Brasil viveu uma dessas eleições em 1986. Quarenta anos depois, em 2026, parece viver um movimento de direção inversa.
Em 1986, o país ainda respirava os primeiros ares da redemocratização depois de 21 anos de regime militar, iniciado em 1964. A eleição ocorreu sob o impacto da Nova República, das Diretas Já, da eleição de Tancredo Neves e também da enorme popularidade inicial do Plano Cruzado. O resultado foi avassalador: o PMDB conquistou 22 dos 23 governos estaduais e elegeu 260 dos 487 deputados federais e sozinho, 53% da Câmara. Na eleição para o Senado, conquistou 38 das 49 vagas então disputadas.
Do outro lado estava principalmente o sistema partidário que carregava parte da herança política do regime anterior. O PDS, sucessor da Arena, que sustentara politicamente os governos militares, sofreu uma derrota histórica: ficou com apenas 33 deputados federais, dois senadores eleitos e nenhum governador. O PFL, nascido de uma dissidência do próprio PDS e aliado do governo Sarney, porém, conquistou 118 deputados. Isso demonstra que 1986 não representou simplesmente uma vitória da “esquerda”, mas uma gigantesca reorganização do poder em favor das forças da redemocratização.
O próprio PMDB reunia correntes progressistas, moderadas e conservadoras. Tanto que, durante a Assembleia Constituinte, uma parcela importante de seus parlamentares participou do chamado Centrão. Ainda assim, naquele momento histórico, conceitos como democracia, direitos sociais, participação popular, ampliação das liberdades e construção de uma nova ordem constitucional ocupavam o centro da agenda nacional. O Congresso eleito em 1986 produziria a Constituição de 1988.
Quarenta anos depois, o pêndulo mudou de direção.
As eleições de 2026 apresentam uma fotografia quase inversa na correlação de forças. O PL elegeu 121 dos 513 deputados federais, ampliando sua bancada em 24 cadeiras e tornando-se, com enorme vantagem, o maior partido da Câmara. A federação PT-PCdoB-PV ficou com 82 deputados.
No Senado, a mudança é ainda mais impressionante. Das 54 cadeiras disputadas, o PL conquistou 19. Considerados também os parlamentares com mandato até 2030 e as alterações decorrentes das eleições estaduais, a legenda deverá iniciar 2027 com 28 dos 81 senadores, contra nove do PT e oito do MDB. Será a maior bancada partidária no início de uma legislatura do Senado desde a Constituição de 1988.
O simbolismo histórico é extraordinário. Em 1986, o PMDB conquistou 38 das 49 cadeiras senatoriais em disputa; em 2026, o PL conseguiu 19 das 54. São magnitudes diferentes, mas os dois resultados expressam momentos de forte reorganização do sistema político. Em 1986, o partido identificado com a redemocratização ocupava o centro do poder. Em 2026, uma força política de identidade predominantemente conservadora assume a maior bancada das duas Casas do Congresso.
Há, portanto, uma interessante simetria histórica. 1986 foi uma eleição marcada pelo desejo de afastamento da ordem política construída durante o regime militar; 2026 revela o fortalecimento de forças conservadoras depois de quatro décadas nas quais direitos sociais, Constituição de 1988 e agendas progressistas tiveram enorme presença no debate político brasileiro.
Isso não significa que o Brasil tenha permanecido progressista durante quarenta anos, tampouco que tenha se tornado integralmente conservador agora. A história política brasileira nunca foi tão linear. Houve governos de centro, centro-direita, centro-esquerda e coalizões extremamente heterogêneas. O próprio segundo turno presidencial de 2026 ainda será disputado, demonstrando que a sociedade permanece profundamente dividida.
Mas o Congresso que saiu das urnas oferece um dado impossível de ignorar: o conservadorismo deixou de ser apenas uma força de resistência às mudanças e passou a ocupar uma posição central na organização institucional do poder.
Em 1986, o eleitor brasileiro ajudou a enterrar eleitoralmente boa parte da estrutura partidária herdada do regime militar. Em 2026, quarenta anos depois, o eleitorado promove outra mudança de eixo.
A história raramente se repete da mesma maneira. Ela trabalha por movimentos, contradições e reações. O pêndulo que em 1986 se deslocou em direção à redemocratização e à expansão dos direitos agora se movimenta em direção ao conservadorismo.
Quarenta anos depois, não estamos assistindo à repetição de 1986. Estamos assistindo, em muitos aspectos, ao seu movimento inverso.
* João Edisom de Souza – Analista político e professor universitário
-
Polícia6 dias atrásMinistério Público busca aumento das penas do caso Zampieri
-
Esportes5 dias atrásFim da linha: Corinthians demite Fernando Diniz
-
Esportes5 dias atrásCuiabá segura o Vila Nova em casa cheia e Tigrão perde a liderança da Série B
-
Economia4 dias atrásAssembleia com futuros moradores do Residencial Jardim Califórnia foi realizada nesta quarta (7)
-
Polícia5 dias atrásRede de enfrentamento à violência doméstica completa quatro anos
-
Polícia Federal5 dias atrásDeputados avaliam resultados das eleições e projetam trabalhos
-
Cultura4 dias atrásCanadense Anne Carson vence Nobel de Literatura
-
Política5 dias atrásSEISC leva recreação, presentes e alegria a crianças de escola em Várzea Grande
