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Autoestima negra como estratégia de enfrentamento

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Falar sobre Consciência Negra é falar sobre história, resistência e pertencimento, mas é também falar sobre beleza e, acima de tudo, sobre como nos enxergamos.

A autoimagem é um espelho da identidade. Durante séculos, esse reflexo foi distorcido por padrões que negavam a negritude e exaltavam traços, cabelos e peles que não representavam a maioria da população brasileira.

A beleza negra foi, por muito tempo, silenciada. Nas capas de revistas, nas telas, nas propagandas e até nas bonecas da infância, as referências eram quase sempre brancas. Essa ausência não foi casual: ela moldou a percepção do que era considerado bonito e, por consequência, aceito. Para muitos, o espelho se tornou um espaço de conflito, não de amor.

Mas o tempo, a luta e a consciência transformam-se. Hoje, vemos um movimento crescente de resgate e valorização da estética afro-brasileira. Cabelos crespos e cacheados ocupam seu lugar de destaque, peles retintas ganham visibilidade e a beleza negra se afirma não como tendência, mas como identidade.

Sabemos que comportamento, pensamento e emoção estão interligados. Quando uma pessoa negra assume o cabelo natural, valoriza seus traços e se olha com verdade, não falamos apenas de estética. Falamos de uma estratégia de enfrentamento.

Esse gesto reorganiza crenças limitantes, gera novas emoções e fortalece a identidade. É uma afirmação de presença, uma forma de ocupar simbolicamente os espaços que historicamente foram negados à negritude. E isso tem um efeito real na autoestima.

Como visagista, acredito que a beleza é uma ferramenta poderosa de autoconhecimento e expressão. Quando uma pessoa negra se vê representada, quando passa a reconhecer e admirar seus próprios traços, acontece algo muito profundo: nasce uma reconciliação com a própria imagem. E essa reconciliação é libertadora.

A estética, nesse sentido, é também política. Assumir o cabelo natural, escolher uma maquiagem que valorize a pele negra, vestir-se de forma que dialogue com a ancestralidade: tudo isso é uma forma de dizer “eu existo, eu me amo, eu me reconheço”. Cada gesto de autocuidado é também um ato de resistência.

A Consciência Negra, portanto, não se restringe a um dia ou a um mês. Ela é um exercício diário de autoafirmação; é olhar no espelho e enxergar beleza onde antes havia negação. É compreender que não há um único padrão de bonito, mas uma infinidade de belezas que refletem histórias, culturas e raízes diversas.

Cultivar a autoestima é cultivar consciência. Quando a pessoa negra se permite amar a própria imagem, ela abre caminho para que outras também se vejam com amor. É uma corrente de cura e empoderamento que ultrapassa o campo estético e toca o social, o emocional e a alma.

Neste Novembro Negro, e em todos os outros meses, que o espelho seja um aliado, não um juiz. Que a beleza negra continue ocupando todos os espaços, inspirando novas gerações a entender que autoimagem e identidade caminham juntas.

Porque celebrar a própria imagem é, antes de tudo, um ato de consciência.

*CAROL BISPO é visagista, especialista em cabelos crespos e cacheados, formanda em Psicologia e idealizadora do método Cabelo do Dia Seguinte. Instagram: @carolbispovisagismo.

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ELIÇÕES NO BRASIL QUARENTA ANOS DEPOIS O PÊNDULO POLÍTICO MUDOU DE LADO

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Há eleições que simplesmente escolhem governantes e parlamentares. Outras encerram ciclos, reorganizam forças e revelam mudanças profundas na sociedade. O Brasil viveu uma dessas eleições em 1986. Quarenta anos depois, em 2026, parece viver um movimento de direção inversa.

Em 1986, o país ainda respirava os primeiros ares da redemocratização depois de 21 anos de regime militar, iniciado em 1964. A eleição ocorreu sob o impacto da Nova República, das Diretas Já, da eleição de Tancredo Neves e também da enorme popularidade inicial do Plano Cruzado. O resultado foi avassalador: o PMDB conquistou 22 dos 23 governos estaduais e elegeu 260 dos 487 deputados federais e sozinho, 53% da Câmara. Na eleição para o Senado, conquistou 38 das 49 vagas então disputadas.

Do outro lado estava principalmente o sistema partidário que carregava parte da herança política do regime anterior. O PDS, sucessor da Arena, que sustentara politicamente os governos militares, sofreu uma derrota histórica: ficou com apenas 33 deputados federais, dois senadores eleitos e nenhum governador. O PFL, nascido de uma dissidência do próprio PDS e aliado do governo Sarney, porém, conquistou 118 deputados. Isso demonstra que 1986 não representou simplesmente uma vitória da “esquerda”, mas uma gigantesca reorganização do poder em favor das forças da redemocratização.

O próprio PMDB reunia correntes progressistas, moderadas e conservadoras. Tanto que, durante a Assembleia Constituinte, uma parcela importante de seus parlamentares participou do chamado Centrão. Ainda assim, naquele momento histórico, conceitos como democracia, direitos sociais, participação popular, ampliação das liberdades e construção de uma nova ordem constitucional ocupavam o centro da agenda nacional. O Congresso eleito em 1986 produziria a Constituição de 1988.

Quarenta anos depois, o pêndulo mudou de direção.
As eleições de 2026 apresentam uma fotografia quase inversa na correlação de forças. O PL elegeu 121 dos 513 deputados federais, ampliando sua bancada em 24 cadeiras e tornando-se, com enorme vantagem, o maior partido da Câmara. A federação PT-PCdoB-PV ficou com 82 deputados.
No Senado, a mudança é ainda mais impressionante. Das 54 cadeiras disputadas, o PL conquistou 19. Considerados também os parlamentares com mandato até 2030 e as alterações decorrentes das eleições estaduais, a legenda deverá iniciar 2027 com 28 dos 81 senadores, contra nove do PT e oito do MDB. Será a maior bancada partidária no início de uma legislatura do Senado desde a Constituição de 1988.

O simbolismo histórico é extraordinário. Em 1986, o PMDB conquistou 38 das 49 cadeiras senatoriais em disputa; em 2026, o PL conseguiu 19 das 54. São magnitudes diferentes, mas os dois resultados expressam momentos de forte reorganização do sistema político. Em 1986, o partido identificado com a redemocratização ocupava o centro do poder. Em 2026, uma força política de identidade predominantemente conservadora assume a maior bancada das duas Casas do Congresso.

Há, portanto, uma interessante simetria histórica. 1986 foi uma eleição marcada pelo desejo de afastamento da ordem política construída durante o regime militar; 2026 revela o fortalecimento de forças conservadoras depois de quatro décadas nas quais direitos sociais, Constituição de 1988 e agendas progressistas tiveram enorme presença no debate político brasileiro.

Isso não significa que o Brasil tenha permanecido progressista durante quarenta anos, tampouco que tenha se tornado integralmente conservador agora. A história política brasileira nunca foi tão linear. Houve governos de centro, centro-direita, centro-esquerda e coalizões extremamente heterogêneas. O próprio segundo turno presidencial de 2026 ainda será disputado, demonstrando que a sociedade permanece profundamente dividida.
Mas o Congresso que saiu das urnas oferece um dado impossível de ignorar: o conservadorismo deixou de ser apenas uma força de resistência às mudanças e passou a ocupar uma posição central na organização institucional do poder.

Em 1986, o eleitor brasileiro ajudou a enterrar eleitoralmente boa parte da estrutura partidária herdada do regime militar. Em 2026, quarenta anos depois, o eleitorado promove outra mudança de eixo.
A história raramente se repete da mesma maneira. Ela trabalha por movimentos, contradições e reações. O pêndulo que em 1986 se deslocou em direção à redemocratização e à expansão dos direitos agora se movimenta em direção ao conservadorismo.
Quarenta anos depois, não estamos assistindo à repetição de 1986. Estamos assistindo, em muitos aspectos, ao seu movimento inverso.

* João Edisom de Souza – Analista político e professor universitário

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