Cultura
Círio da COP30: fé que move romeiros e prepara Belém para o mundo
Cultura
Círio de Nazaré, uma jornada espiritual de fé, amor e humildade. Definitivamente, a capital paraense faz uso ao nome da estrela que guiou os três reis magos até ao local do nascimento de Jesus. Como um sinal milagroso, Belém simbolicamente é a anunciação porque se antecipa ao Natal com a realização do Círio de Nazaré, que desde 2013 é considerado pela Unesco Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

Este ano, a maior procissão católica do mundo celebra a sua 233ª edição às vésperas da 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, é a COP30, e por isso o Círio está sendo considerado o Círio da COP, mas também um termômetro para testar a logística da cidade. Não por acaso, Belém já vive dias fora do comum com o Círio de Nazaré e é visível o reforço do sistema de segurança durante a festividade religiosa que homenageia Nossa Senhora de Nazaré. Segundo o governo do Pará, a experiência de Belém com o evento religioso contribui de modo significativo para o planejamento da infraestrutura e da logística da COP30.
Ainda ontem (11), uma verdadeira prova de fogo, a imagem peregrina foi celebrada na Romaria Fluvial com mais de 400 embarcações e uma multidão estimada em 50 mil pessoas, e logo depois veio a moto romaria. À noite, na trasladação, que durou mais de cinco horas e meia, a gente viu se antecipar a celebração que, desde as seis da manhã de hoje (12), deu início à procissão mais importante do Círio, com cerca de dois milhões de pessoas em romaria. E essas pessoas, muitas, muitas delas, passaram pela Casa de Plácido, abrigo e acolhimento.
O nome Casa de Plácido faz uma homenagem ao paraense agricultor e caçador Plácido José de Sousa, que no ano de 1700 encontrou a pequena imagem de Nossa Senhora de Nazaré entre pedras lodosas às margens do igarapé Murutucu, onde se encontra hoje a Basílica. Após o achado, Plácido levou a imagem para sua choupana, só que no outro dia ela não estava lá. Correu ao local do encontro e, finalmente, encontrou a imagem da Santinha.
E esse fato se repetiu por várias vezes. Plácido, então, construiu no local uma ermida. Mas para muito além da história, é na Casa de Plácido que o milagre da fé se corporifica no ritual do Lava Pés, que, sem dúvida, é uma demonstração de humanidade e doação.
Por ali passam as caravanas dos romeiros, num total de 18 mil pessoas esperadas para o Círio deste ano, segundo a coordenadora da acolhida da Casa de Plácido, Maria da Conceição Rodrigues.
“Nós estamos nesse Círio com 530 voluntários. Voluntários, diversos profissionais liberais, do médico ao advogado, contador, todas profissões. Nós somos 14 equipes de trabalho. Para vocês terem ideia, ano passado nós tivemos 286 caravanas fechadas, foram 20.500 pessoas, só de caravana. E visitantes, romeiros visitantes, foram 11 mil. Nós acreditamos que essa expectativa vai aumentar, porque até quarta-feira (8), quando a casa não estava aberta, nós já tínhamos 212 caravanas inscritas, já tinha uma média de 18 mil.”
Os testemunhos em lágrimas podem ser traduzidos nas feridas que os romeiros têm no coração e também nos pés. Os relatos são impressionantes. É uma coisa linda a gente perceber a solidariedade, principalmente, das pessoas voluntárias que se dispõem a ficar por horas lavando e enxugando a dor dos que se lançam na caminhada da fé por dias e dias, até semanas.
Impossível conter a emoção diante da devoção do povo paraense pela Rainha da Amazônia, que navega as ruas de Belém e anuncia que é Círio outra vez.
E numa tentativa de recepcioná-la com a luz do espectro do arco-íris, com suas cores, a aquarelista paraense Aline Folha foi convidada a criar a ilustração das peças de comunicação e ativações do Círio para a Vale. Sua obra transita pelos estados emocionais do cotidiano feminino, especialmente pela vivência do maternar em uma busca por liberdade, acolhimento e possibilidades. A artista imprime em suas criações os rastros do processo artístico que evidenciam a presença da água, do grafite, na relação entre desenho e aquarela.
“Quando eu penso em Nazinha, eu só consigo realmente pensar em um agradecimento imenso, porque foi desde 2016, quando eu criei o primeiro manto… que me convidaram para fazer, do Círio, eu acho que ali eu criei uma ligação com ela, da minha forma. E depois eu tentei muito engravidar e botei minha gravidez nas mãos dela, então assim, eu sou realmente muito, muito grata à Nossa Senhora de Nazaré.”
Inspirada pelas emoções e sensações vivenciadas nas ruas de Belém durante a procissão, Aline traduziu os cinco sentidos em elementos visuais: o tacacá, que é o paladar; os gritos de “viva, viva, viva” e os fogos, a audição; os brinquedos de miriti e a Berlinda, claro; sem falar do acolhimento materno e a promessa e os aromas da festa.
Pois é, sem dúvida, a obra de Aline Folha reforça a certeza de que o Círio não se explica, o Círio se vive.
Cultura
Ao poeta, poesia: amigos se despendem de Luis Turiba neste sábado (29)
DESACONTESSÊNCIAS

desaconteci
(mentavelmente)
tudo acontece para
desacontecer em si
anoitece para amanhecer
nascer viver crescer morrer
tecer escrituras em silêncios
semânticas em pura seda
Luis Turiba desaconteceu na madrugada de 26 de agosto, em Salvador, aos 76 anos. Poeta, ativista cultural, jornalista. Nascido no Recife, em 1950, Turiba deixa cinco filhos, seis netos e uma ampla obra, que inclui poesias, crônicas, textos jornalísticos, video-documentários, revistas culturais e parcerias musicais.
Seu primeiro livro de poesia, Kiprokó, foi lançado em 1977. No Rio de Janeiro, pra onde se mudou ainda jovem, conseguiu emprego como repórter, iniciando uma bem-sucedida carreira com passagens pela revista Manchete e pelos jornais O Globo e Gazeta Mercantil. Foi como correspondente da Gazeta que Turiba mudou-se para Brasília, em 1979. Ganhou vários prêmios por suas reportagens, inclusive dois Esso regionais.
Amigo de Turiba desses tempos de início de Brasília, o poeta Nicolas Behr conta que conversou com o amigo na véspera do falecimento
“Não esperava essa notícia. Grande agitador cultural, um homem de ideias e de realizações, que fazia poeta, jornalista, atuante, ativo, presente. Editor da revista Brica Brac, né? Essa revista que nos anos 80 entrou para a história da literatura a história das história das revistas literárias brasileiras do século passado. Grande Turiba, só temos que celebrar sua memória, sua eterna presença entre nós.”
A revista cultural Bric-a-Brac foi editada entre 1985 e 2022. A publicação extrapolou os limites do Distrito Federal, entrevistando intelectuais e artistas como Caetano Veloso e Paulinho da Viola; Nise da Silveira; Manoel de Barros, entre outras personalidades.
Em sua trajetória, passou pela assessoria de comunicação do ministério da Cultura, que soltou nota lamentando a morte de Turiba e afirmando que o jornalista “participou de momentos importantes da história do próprio MinC”.
O Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal lembrou que “além de sua escrita afiada nas redações, Turiba foi um símbolo vivo da resistência democrática que marca a história da categoria. Militante histórico, ele sofreu severa perseguição política, prisão e tortura durante o regime militar”.
Em agosto de 2024, a Comissão de Anistia concedeu anistia política a Turiba, reconhecendo que a farta documentação que o escritor reuniu e apresentou ao colegiado comprova que, durante a ditadura, ele foi perseguido por razões políticas, tendo sido monitorado pelo Serviço Nacional de Informações (SNI) até meados da década de 1980. Além da condição de anistiado, Turiba recebeu do Estado brasileiro um pedido formal de desculpas.
Após anos atuando como assessor do Ministério da Cultura, aposentou-se no início da década de 2010 para dedicar-se exclusivamente à literatura. Viveu os últimos anos entre o Rio de Janeiro, Salvador e Brasília.
Neste sábado, amigos prestam a última homenagem no Beirute, tradicional restaurante de Brasília. Reduto de muitos encontros e acontecências.
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